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Alzheimer - Tornei me uma Cuidadora (Relato verídico)


De repente o telefone tocou e fui surpreendida com um delegado de polícia do outro lado da linha dizendo que estava com minha mãe na delegacia e mais duas pessoas desconhecidas.
Fiquei muito assustada ao receber a ligação e mais ainda quando soube o motivo. As duas pessoas estavam lá fazendo uma denúncia de agressão a idoso e, pasmem, o agressor era eu!
Corri para a delegacia e chegando lá todos vieram ao meu encontro com acusações e muita grosseria. Aguardei até se acalmarem para poder dar explicações. Minha mãe estava sentada em um canto da delegacia e chorava muito.
Naquela tarde estas duas pessoas encontraram a minha mãe na rua do prédio onde morava com minha irmã. Minha mãe chorava muito e dizia que havia apanhado da filha mais velha. As duas pessoas conversaram com o porteiro do prédio que deu a eles o número do meu telefone. Indignados eles levaram a minha mãe para a delegacia que ficava a poucos quarteirões do prédio.
Na delegacia expliquei ao delegado que o fato não havia acontecido, mesmo porque minha mãe estava sozinha naquela tarde. Disse a eles que minha mãe estava tendo crises de depressão e por vez ou outra ela se esquecia de tudo e ficava um pouco confusa.
O delegado chamou minha mãe para perto de nós e ela não me reconheceu, falei com ela e ela continuava chorando pedindo para chamar a filha mais velha dela.
Neste momento tanto as duas pessoas, como o delegado entenderam que ela não estava bem. Eu fiquei mais surpresa ainda, pois não imaginaria que, de um dia para outro, minha mãe não me reconheceria.
O delegado e as pessoas depois de conversam um pouco mais com ela e comigo, perceberam de que se tratava não de um caso de agressão e sim de uma senhora que estava apresentando problemas de demência.
Nesta tarde tornei-me uma Cuidadora.
No dia seguinte pela manhã levei a minha mãe a uma clínica especializada em Alzheimer e a triste notícia foi confirmada, minha mãe era portadora da doença.
Após este dia, no prazo de sete meses, a saúde mental de minha mãe decaiu sobremaneira, hoje ela é incapaz de saber onde mora, incapaz de saber o dia da semana, acorda no meio da noite querendo sair e ir embora, se alimenta muito mal, usa fraldas. Sua fala e raciocínio totalmente desconexos nos desafia a cada momento em que ela tenta se comunicar conosco, eu e minha irmã.
Para me auxiliar nos cuidados de minha mãe, minha irmã veio morar comigo. Depois de inúmeras tentativas frustradas com clínicas, home care e day care, eu e minha irmã resolvemos cuidar nós mesmos de nossa mãe. Nossa vida mudou completamente, restrições nos horários e dias da semana. Hoje trabalhamos parte do tempo em casa e nos revezamos nos horários e dias em que necessitamos desenvolver atividades externas.
O que mais me consterna é saber o quanto não se sabe a respeito desta doença avassaladora. O Alzheimer acaba com o cérebro do portador da doença e com o emocional dos cuidadores.
Tive a “sorte” de ter participado do Processo Hoffman alguns meses antes do diagnóstico da enfermidade de minha mãe. O Processo Hoffman é um programa de desenvolvimento emocional. Hoje sei que o universo me colocou em contato com o Centro Hoffman, pois sabia que em um futuro breve eu precisaria deste preparo para a nova fase da minha vida. Por isto consigo de alguma forma manter o meu equilíbrio emocional, uso as técnicas para me acalmar e me centrar. O outro fator que me auxilia na manutenção deste equilíbrio é a prática esportiva.
O desconhecimento desta estranha doença do córtex cerebral é muito grande. Atualmente estima-se que 35,6 milhões de pessoas em todo o planeta sofram de demência, sendo que o Alzheimer é o tipo mais freqüente. Aqui no Brasil os casos giram em torno de 1,2 milhão de pessoas e este número deve dobrar nos próximos dez anos resultado do aumento da população da terceira idade.
O Alzheimer é a perda de neurônios na estrutura do hipocampo e regiões do córtex cerebral. Esta perda se dá até o desaparecimento da superfície convoluta do cérebro. A perda neuronal se inicia na região frontal do cérebro – responsável pela memória, emoções e pensamento – rumo às áreas posteriores – reconhecimento, julgamento, entre outras. Sem nenhum tratamento, em dois anos o cérebro é praticamente engolido pela doença. Os pesquisadores conhecem mais de 130 alterações genéticas associadas à demência do tipo Alzheimer – algumas delas são capazes de desencadear a degeneração neuronal mesmo em pessoas de 30 anos.
Apesar de todos estes dados pouco se conhece a respeito da doença. Não há um diagnóstico preciso e é muito difícil de perceber as mudanças comportamentais atreladas ao Alzheimer quando ainda está no início. Somente depois de instalada a enfermidade de forma avassaladora é que entendemos que certos comportamentos do passado que atrelávamos a depressão, personalidade difícil, a estresse ou nervosismo, tudo eram indícios do início do Alzheimer.
O mais duro de todo o processo é o desconhecimento e o despreparo de médicos e clínicas que se dizem especializados no tema. Eu e minha irmã passamos pelos mais diversos tipos de dificuldades em lidar com os péssimos prestadores de serviço do segmento. Abusam da sua fragilidade emocional e da fragilidade do paciente que não consegue se comunicar e muito menos se defender. Se temos dificuldade no atendimento a pequenas enfermidades e tratamentos corriqueiros imaginem o despreparo, o desrespeito e as humilhações a que nos submetemos junto as estas entidades para tratar de uma doença desafiadora.
Também não se tem nenhum fato conclusivo de como esta doença se dá. Cientistas ainda não compreendem completamente o que causa a doença de Alzheimer, mas está claro que ela se desenvolve por causa de uma série complexa de eventos que ocorrem no cérebro durante um longo período de tempo. É provável que as causas incluam genética e fatores ambientais e de estilo de vida. Uma vez que as pessoas variam na genética e estilo de vida, a importância desses fatores para prevenção ou adiamento da doença de Alzheimer difere de pessoa para pessoa.
Novas pesquisas sugerem que possivelmente os fatores de estilo de vida também ajudariam a diminuir o risco de comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer. Dieta nutritiva, exercícios físicos, contatos sociais, e objetivos mentalmente estimulantes podem ajudar a pessoa a se manter saudável.
Defendo esta tese fortemente, pois o esporte sociabiliza, trás momentos únicos juntos de amigos, te estimula, te mantém jovem e saudável.
O maior ganho no esporte é a manutenção do equilíbrio mental. Ao praticar um determinado exercício é praticamente impossível pensar em outra coisa. Acredito que é neste momento que o cérebro se desconecta de tudo aquilo que não lhe faz bem, trazendo a sensação de alívio e bem estar.
Não deixem para cuidar da saúde no futuro, pois ela pode não existir mais.
Para reflexão deixo aqui as frases de alguns sábios.
“A saúde é conservada pelo conhecimento e observação do próprio corpo.” – Cícero
“A saúde é o resultado não só de nossos atos como também de nossos pensamentos.”  -Mahatma Gandhi
“Não sabemos avaliar a saúde quando a temos, lamentamos a sua falta quando a perdemos.” -  Marquês de Maricá.

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