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Memória nos Idosos - Entrevista com Dr. Drauzio Varella


A população de homens e mulheres acima dos 60 anos aumentou muito nas últimas décadas. Alguns ultrapassam os 80, 90 anos em condições clínicas satisfatórias, mas são raros os que não apresentam dificuldades com a memória. Em geral, as recordações do passado permanecem vivas, recheadas de pormenores, mas a memória falha, quando querem lembrar de acontecimentos recentes. Isso desconcerta um pouco os familiares. “Meu avô conta, com minúcias, histórias que ocorreram quando tinha cinco anos e morava no interior e se esquece do número do telefone de casa ou o que comeu no almoço”, fala o neto preocupado.
A pergunta que se impõe é, se a partir dos 40, 50 anos a capacidade de armazenar informações começa a sofrer um processo lento e gradativo de deterioração, ou se, no mundo moderno, a quantidade absurda de informações com que somos bombardeados dificulte sua assimilação. De qualquer modo, a perda da memória não pode ser considerada como um fato inexorável associado ao envelhecimento. Quanto mais precoce forem diagnóstico e a prescrição do tratamento, mais fácil será deter a evolução da perda da memória.
SÍNDROME DEMENCIAL
Drauzio – A partir dos 40, 50 anos, perdemos um pouco a capacidade de reter os fatos na memória ou, hoje, a quantidade de informações é tão grande que é impossível lembrar todas elas?
Alberto Macedo Soares –Essa é uma dúvida a ser esclarecida. Não se pode negar que, hoje, além do acúmulo enorme de informações,  o grau de preocupação é tanto que o trabalho não se encerra com o término do expediente. Muitas vezes, a pessoa  de 40, 50 anos entra em casa, liga o computador e continua em atividade,  comprometendo as horas que deveriam ser reservadas para descansar e dormir. Essas situações são responsáveis por aumento da carga de estresse e pelo déficit de atenção, que podem provocar prejuízo da memória, principalmente da memória recente.
No entanto, não podemos interpretar a perda da memória como um fato inexorável associado ao envelhecimento. Existem pessoas com 85, 90 anos com memória absolutamente íntegra, enquanto outras apresentam alterações muito mais jovens. Cabe-nos, então, investigar o que antigamente se chamava de esquecimento benigno e distingui-lo do esquecimento que é maligno, pois o déficit de memória associado à idade, que não é doença, é diferente da perda de memória que caracteriza a síndrome demencial, uma doença que prejudica o indivíduo a tal ponto que ele não consegue mais manter as funções social, pessoal e profissional.
Drauzio – Como se traça essa linha divisória?
Alberto Macedo Soares – Essa é a grande dificuldade. O envelhecimento pode, sim, trazer um pequeno déficit de atenção, de concentração, de armazenamento de dados atuais, mas em absoluto isso compromete as funções sociais do indivíduo. A partir do momento, porém, que ele passa a cometer deslizes no trabalho, não se lembra do nome do neto que vê todos os domingos, nem de tarefas corriqueiras como pagar uma conta, o esquecimento deixa de estar associado à idade e passa a ser encarado como sintoma de síndrome demencial. Embora esse termo pareça pesado demais e pejorativo no Brasil, esse é o nome que se usa em todo o mundo.
Drauzio – Parece certo que a perda de memória associada à idade frequentemente se refere à memória precoce. As memórias tardias ficam bem arquivadas e custam a desaparecer.
Alberto Macedo Soares – Tanto no prejuízo da memória associado à idade quanto na síndrome demencial, o déficit manifesta-se inicialmente para os fatos recentes. As pessoas vão se esquecendo dos recados, do número do telefone, do nome do vizinho. Quando o processo se agrava é um sinal de alerta.
Autores apontam que prejuízo da memória atribuído à idade, de 20% a 30% dos casos, pode ser manifestação inicial de uma doença mais séria. Por isso, a atenção deve ser redobrada e o paciente submetido a exames para identificar se realmente a perda da memória está associada à idade ou é o começo de uma doença que vai degenerar-se na síndrome demencial e exige tratamento precoce.
DIAGNÓSTICO
Drauzio – O que a família deve observar para distinguir um simples esquecimento ou distração de um quadro mais sério de perda da memória?
Alberto Macedo Soares – O problema deve chamar mais atenção quando os esquecimentos ficam frequentes. É óbvio que, se o dia foi marcado por acontecimentos tristes e a pessoa esqueceu de pagar uma conta, isso é normal e não deve ser levado em conta. Na correria do dia a dia, quantas vezes temos de voltar porque esquecemos a chave do carro ou um papel importante sobre a mesa. São esquecimentos que não prejudicam. Agora, quando o paciente sabia de cor o telefone da família inteira e dos amigos, mas não se lembra mais do número do telefone da própria casa ou do escritório, é um sinal de alerta  e a família deve encaminhá-lo para diagnóstico e tratamento. Nós, os geriatras, temos pressa em investigar esses casos a fim de evitar complicações futuras.
Drauzio – Como é feita essa investigação?
Alberto Macedo Soares – Primeiro, procura-se quantificar o tipo de perdas (memórias recentes, tardias, etc.). Depois, testamos outras funções, como a capacidade de interpretar provérbios, por exemplo. Alguns autores já propuseram instrumentos que permitem pontuar o desempenho do indivíduo de acordo com seu nível intelectual e graduação profissional para dizer se ele é portador da síndrome demencial ou não. Muitas vezes, quando o paciente procura o médico, já é portador de síndrome demencial grave, tão grave que não se lembra por que está ali. Para contornar essa dificuldade, somos obrigados a valer-nos de subterfúgios. A filha fala com a secretária, telefona, entrega um bilhetinho para o médico, ou pede para conversar com ele antes da consulta. “Ele sempre foi muito bravo, muito austero, e não admite que esteja ficando esquecido”, começa assim a maioria das conversas. Saber desses dados é essencial para o diagnóstico correto, pois certamente existe um problema grave que deve ser investigado de forma adequada.
DOENÇA DE ALZHEIMER 
Drauzio – Em que idade as síndromes demenciais geralmente se manifestam?
Alberto Macedo Soares – Vamos considerar a doença de Alzheimer, que é uma das mais devastadoras da memória. Menos de 5% da população com 50 anos manifestam essa doença, mas aos 90 anos, 50% da população tem Alzheimer.
Drauzio – Quais as principais características da doença de Alzheimer?
Alberto Macedo Soares – A doença de Alzheimer é causada pela diminuição do número de neurônios dentro do cérebro e pelo depósito de uma proteína chamada beta-amiloide. Isso faz com que o cérebro vá perdendo a função intelectual e o paciente começa esquecendo recadinhos, números de telefone, até que esquece o nome do neto ou a data de pagar as contas. Quando o comprometimento é mais grave, ele se esquece até de comer e de vestir-se. Alzheimer é uma doença degenerativa, de evolução lenta, insidiosa e progressiva. Muitas pessoas recebem equivocadamente esse diagnóstico para justificar a síndrome demencial. Na verdade, para fazer o diagnóstico da doença de Alzheimer com segurança, tínhamos que pedir uma biópsia do cérebro. Como não se pede biopsia cerebral para pessoas com déficit de memória, temos de encontrar uma forma de excluir as outras causas, pois existem mais de 30 ou 40 doenças que podem levar ao comprometimento da memória. Embora a doença de Alzheimer seja a mais frequente, seu diagnóstico deve ser feito por exclusão, isto é, o médico conclui que provavelmente o paciente é portador da doença de Alzheimer, porque nenhuma das outras causas foi determinada para justificar o quadro.
POSSÍVEIS CAUSAS
Drauzio – Na linguagem coloquial, as pessoas se referem aos mais velhos que se esquecem das coisas dizendo que estão ficando esclerosados. A medicina não reconhece essa classificação. Qual seria o termo adequado para definir tais situações?
Alberto Macedo Soares – Esclerose é uma palavra que vem do grego e significa enrijecimento. Há 30 ou 40 anos, acreditava-se que, com a idade, o indivíduo ficava esquecido porque os vasos cerebrais enrijeciam e ele se tornava portador de esclerose vascular ou de arteriosclerose. Daí o termo esclerosado que foi adotado equivocadamente para definir a pessoa com lapsos de memória. Sabemos que a arteriosclerose só é responsável por 20% dos esquecimentos. Por isso, o uso do termo é inadequado. O certo seria chamar de síndrome demencial e investigar suas possíveis causas.
Drauzio – A palavra demencial assusta muito os familiares, que a associam à ideia de loucura. 
Alberto Macedo Soares – Sem dúvida, isso acontece, especialmente no Brasil, onde a palavra é usada de forma agressiva e pejorativa. Chamamos de demente o camarada que passa na nossa frente para entrar no elevador: “Esse demente acha que está com mais pressa do que eu”, e de demente o motorista que cometeu uma imprudência no trânsito. No entanto, ao usar a expressão síndrome demencial, eu me valho da conotação e da agressividade contida na palavra demencial para causar impacto naqueles que ainda acham que esquecer é um fenômeno normal do envelhecimento. Se o idoso anda esquecido, pode ser portador de uma doença que merece ser investigada.
ESTÍMULO INTELECTUAL
Drauzio – Trabalhos demonstram que, quanto mais intelectualizadas as pessoas forem, quando mais atividades físicas fizerem, quanto mais rico for o universo em que vivem, menores serão os déficits de memória e mais lenta a evolução dos casos.
Alberto Macedo Soares – Realmente, há trabalhos mostrando que, teoricamente, quanto maior a atividade intelectual, mais o indivíduo estará protegido contra o acometimento das doenças degenerativas. Há dois ou três anos, estive com Alistair Burns, um pesquisador de memória da Inglaterra. Quando lhe perguntei qual sua recomendação para os interessados em proteger a memória, respondeu: “Digo para aprenderem uma nova língua”.
De fato, ao aprenderem uma nova língua, as pessoas estarão exercitando várias formas de linguagem e várias formas de memória. O processo de aprendizagem envolve necessidade de concentração e apelo constante à memória recente e à memória tardia. Por isso, quando alguém me diz que anda preocupado com a memória porque a mãe teve Alzheimer, pergunto-lhe: “Que língua você fala? Inglês? Então vá aprender francês”. Esse é um jeito de estimular várias funções da linguagem que contribuem para a preservação da memória.
TRATAMENTO
Drauzio – Quando a pessoa vai esquentar o café e esquece o fogo aceso, entra no banho e não se lembra onde estão a toalha e o sabonete, é sinal de que a deficiência da memória pode ter-se estabelecido. O que é possível fazer para minorar as conseqüências desse problema? 
Alberto Macedo Soares – Esse é um momento importante para começar a investigação. Entre as síndromes demenciais, ou seja, entre os déficits cognitivos – para usar uma nomenclatura mais suave para designar uma doença tão devastadora -, existem as potencialmente reversíveis e as irreversíveis.
Depressão, tumores benignos como o meningioma, ou mesmo um hematoma (o idoso caiu, bateu a cabeça e, depois de um tempo ficou esquisito) são causas de esquecimento potencialmente reversível. Mas existem outras: o hipotireoidismo, que é muito freqüente nos idosos, carência de vitamina B12, neurolues ou neurossífilis e a hidrocefalia de pressão intermitente, uma degeneração cujos sintomas são esquecimento, andar descoordenado, como o de um bêbado, e perda do controle urinário. Por que essas doenças são classificadas como causadoras de esquecimento potencialmente reversível? Porque o processo pode ser revertido se o paciente com hipotireoidismo, por exemplo, tomar hormônio tireoideano, logo que começou a apresentar alterações da memória. Agora, se o problema já estiver estabelecido há mais tempo, as chances de reverter o processo serão infinitamente menores.
Por isso, sempre se reitera a informação de que as causas do esquecimento devem ser investigadas assim que a pessoa começou a manifestar esse sintoma.
Drauzio – Quando os quadros demenciais são potencialmente reversíveis, trata-se a doença de base e a pessoa volta ao normal. Mas, quando estamos diante de um quadro de Alzheimer ou de outras demências irreversíveis, o que se pode fazer para retardar a evolução da doença? 
Alberto Macedo Soares – Muito se pode fazer. Infelizmente, a maioria dos pacientes é portadora de demências irreversíveis. No Brasil, as mais freqüentes são a doença de Alzheimer, os pequenos derrames cerebrais causados por micro-infartos, ou uma associação dessas duas enfermidades. Geralmente, os micro-infartos cerebrais são causados por obstruções ou entupimentos, pressão alta, níveis elevados de colesterol, fumo e diabetes, fatores que podem ser identificados e controlados na tentativa de impedir que continuem provocando pequenos acidentes cerebrais.
Todos sabemos que a doença de Alzheimer não tem cura. No entanto, recentemente se descobriu que pacientes com Alzheimer apresentam déficit de um dos maiores mediadores da memória, a acetilcolina e tentou-se administrar acetilcolina nesses casos, mas os efeitos colaterais foram terríveis. A estratégia, então, foi procurar diminuir a atividade destruidora da acetilcolina inibindo a ação da enzima que a destrói e, desse modo, evitar que a evolução dessa doença seja tão dramática.
Drauzio – Esse medicamento está disponível no mercado? 
Alberto Macedo Soares – Não só está disponível, como a rede pública de saúde o fornece gratuitamente. São remédios tão caros que eu costumava dizer que Alzheimer era doença de rico porque só os ricos conseguiam comprá-lo. Felizmente, o Ministério da Saúde desenvolveu centros de referência à saúde do idoso que distribuem o medicamento de graça. Em Santos, coordenamos um desses centros e fornecemos o remédio para os idosos das nove cidades da Baixada Santista.

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